sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Sujeito Indeterminado.

Sujeito indeterminado.

Disseram-me: São psicografados
Teus escritos. De espíritos...Do além mundo...
De vidas que se vertem e, num segundo,
Se juntam aos teus versos externados.

Ora! Por mais que estereotipado,
Incapaz, inativo, vagabundo,
Não é meu cérebro assim. tão infecundo
Que não possa escrever o que é pensado.

Se chamam de poesia esses escritos
Que vêm em luz, em sopros, em conflitos
De magníficas cores, quadro e som,

Pra mim é presunção ou sacrilégio
Dizer de outro este privilégio
Congênito que Deus me deu: O Dom.


Djalma Aquino
Marília SP, Março 2001

(IN) Decisão

(IN) Decisão

Não quero mais te ver. Pouco me importa
As poucas vezes que amei te buscando...
As tantas vezes que, te encontrando,
Vi-me sem vida, com a alma quase morta.

Juro não mais te ver. Que se abra a porta
Do quarto escuro onde estou chorando;
Se mostre ao mundo de que forma e quando
A dor de ser sozinho esta alma corta.

Jurei não mais te ver...Mas neste instante,
Minha alma, num ímpeto alucinante,
Vacila e novamente acha teu colo.

Desperto! E neste mar de solidão,
Naufraga um amargurado coração
Que aceita a ilusão como consolo.


Djalma Aquino
Marília SP Março 2001

Coma Alcoólica

Coma Alcoólica

Num instante raro, meu olhar resvala
Em teu semblante. E noutro instante mágico,
Percebo um quase belo, um quase trágico
Sorriso que se expande pela sala.

Olha e sorri..E Olha...E nada fala
Pra este ser - molambo opiofágico.
Consome-me, então, um caos letárgico
Que em turbulento sono, o sonho embala.

E passa o tempo. E passa...E você solta
O último sorriso. A minha volta,
Pairam resquícios de uma angústia bruta.

À míngua, em coma, assumo que a loucura
Mistura ao vômito sua áscia figura,
De gosto azedo qual ácida fruta.

Djalma Aquino
Botucatu/SP, Março 2001.


Olhar e Sombra

Olhar e Sombra

Não lembro ao certo se era noite ou dia...
Sequer recordo a cor do teu cabelo.
Tampouco lembro o que tornava belo
Aquele olhar que mais que a luz luzia

Também não sei dizer o que envolvia
Teu corpo (se o tinhas), ou se de gelo
Eram tuas formas, congelando o apelo
Que em avidez extrema eu te fazia.

Apenas lembro que em mim tu moraste
E que meu coração, um tanto pálido,
Sugado, tu largaste em qualquer canto.

E das sementes que em mim plantaste,
Brotou um sentimento quase esquálido,
Um arrependimento quase santo.


Djalma Aquino
Vargem Grande do Sul/SP, Maio 2001



Nós, por exemplo.

Nós, por exemplo.

Com um pouco mais de sensibilidade,
Podemos ver semblantes desolados
Nos homens. Os sorrisos disfarçados
Escondem dor em grande quantidade.

Podemos ver com que docilidade
Transformam seus sonhos naufragados
Em álibis. Ou desacreditados,
Suas frustrações entregam às santidades.

E quantos não se cercam de tamanha
Angústia e da sensação estranha
Que a morte é, desta vida, pura essência?

Conformam-se em serem "seres vivos"
E fazem disso, um pálido motivo
Pra suportarem o fardo da existência.


Djalma Aquino
Vargem Grande do Sul/SP, Maio 2001

Saber

Saber

O saber é desejo inatingível;
É um sonho profano e sacrossanto
Em cujas vísceras fuçamos tanto,
Na busca eterna do incognoscível.

É tropeçar na fórmula infalível
De se trocar, as cegas, nosso pranto
De ignorantes pelo cego encanto
Dos que julgam saber do impossível.

E como se de nós ele zombasse,
Dá uma face ao bem e a outra face
Oferta ao mal sem qualquer relutância,

Fazendo suscitar o contra-censo
Que me divide e, muitas vezes, penso
Ser a base de toda a ignorância.


Itu/SP
Novembro 2001

Renascer

Renascer

Quando murcha uma flor, no chão, largadas,
As pétalas, com rota aparência,
Trazem ao Jardim, a dor, a reticência,
Como sofressem almas naufragadas.

E a roseira triste, mutilada,
Como pedisse ao tempo clemência,
Não vê que a natureza, em sapiência,
Faz nascer outra rosa perfumada.

Também, nas muitas vezes quando vemos
Findar um doce sentimento, temos
A sensação que a flor está perdida.

Surgem os brotos! Outra flor emerge
Pela Graça de Deus que tudo rege,
Governa e dá sentido à nossa vida.


Djalma Aquino
Jaboticabal/SP, Dezembro 2001



Partindo...

Partindo

Já não te importa a terra onde floriste,
As dores deste mundo desumano,
Já não te importam os traços deste plano
Que segue tal e qual um dia tu viste.

Tudo é igual...Apenas bem mais triste...
O árico viver (e seu  arcano)
Converterá em Fé, o desengano,
Mas quase tudo é vão, já que partiste.

Eu sei! Já não te servem estas matérias
Inúteis. Tampouco, estas macérias
Podem prender a tua alma. Enfim,

Somente importa o bem que fizeste
E o modo humilde como tu viveste.
E sei! Florescerás em outro jardim.

Djalma Aquino
Itu/SP, Dezembro 2001

Chatice

Chatice


Tenho um desmaio por dia
Quando não vejo a Maria.
(Esta rima é fantasia
Que me vem com estranheza:
Posso sorrir de tristeza
E desmaiar de alegria).


Djalma Aquino
Jaboticabal/SP, Dezembro 2001

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Maresia

Maresia

De tudo que é sentido, eis que condenso
Um sentimento extremo e ao mar, a frente,
Deixo-o esquecido disfarçadamente
Mas ei-lo forte me espetando o senso.

Eu quis despir-me do que é mais intenso.
Vi-me qual rio, que em caudalosa enchente,
Tudo carrega indiferentemente
E esquece tudo nesse mar imenso.

Mas não sou rio e tu, meu sentimento,
Quando na alma, cm chaga convertido,
Só acabas se te segue outro tormento.

De vez em quando  teimas, vens...me sondas
Qual grão de areia na praia perdido,
Nas águas turvas, misturado em ondas.

Djalma Aquino
São José do Rio Preto SP, Fevereiro 2001

Título Morto

Título Morto

Homens! Sandeus! Patuscos, que este solo
Profanais como se não o houvessem herdado.
Malamba a tantos vós haveis causado
E a tantos outros também causeis dolo.

Não mais bebais tal vinho que um só golo
Sobeja a vós que estais embriagados.
Desnudai-vos da pecha do pecado
E esperai no perdão vosso consolo.

Quereis? Podeis!  Porém, o tempo finda:
Debelai-vos à cura a alma podrida
E dissipais labéus que é tempo ainda.

E vede: Não vos quis o Pai por sorte,
Almas penadas maculando a vida;
Corpos em renque à espera da morte.

Djalma Aquino
Votorantim SP, Outubro 1999

Anjo?

Anjo?

É anjo em carne e assim, inconcebível
Enquanto "ser" e quando "não ser". Desces
Á terra e em fogo de paixões te aqueces;
E vai  aos céus pra ouvires minhas preces.
É mutação frequente, imensa, incrível.

Te fazes perto enquanto tão distante
E tão distante apesar de tão perto;
E jamais tens pra mim olhar desperto;
Se em cárcere te privo, estás liberto.
Por quanto, és "ser" enquanto "ser mutante".

Anjo! Bem vejo quando vens e deitas,
Mas não percebo quando me rejeitas
E te rejeito quando não percebes.

E a carne logo te desassemelhas
Pois partes para o céu ruflando aselhas
E em febril enlevo me recebes.

E crendo ou não eu busco teu conselho;
E em amor ou crença és tu que me aconselhas
Já que é paixão ou fé que na alma arde.

Porquê a herege eu mesmo me assemelho
Se o meu querer a anjo te assemelha.
És anjo enquanto....porquanto...apesar de...

Djalma Aquino
Itu/SP Dezembro 2000

Último Adeus

Último Adeus

Um último olhar agora lanço
Em direção ao corpo que jaz manso,
Que há tanto tempo, pedia descanso
Do peso imenso que a vida lhe impunha.
Desse-me Deus poder, a mão lhe punha
Retirando do corpo essa ferida,
Devolvendo-lhe, assim, o que em vida
Negou-lhe, até de forma desmedida,
A natureza fria, imparcial.

Mas vejo, de outro lado, o triunfal
Espírito sereno...que lhe sai
Como nuvem. Sinto que ele vai
Seguindo certo e firme rumo ao Pai.


Djalma Aquino
São Roque/SP Fevereiro 2000

Nota

Nota

Tenho um violão
Com as mesmas cordas
E a mesma afinação que o seu.
Mas não tenho o dom
De tirar do meu
Aquele belo som
com diminuta e tal
Mas isso não faz mar
Porquê minha tristeza
Tantas vezes fatal,
Não vou transparecer
Num belo recital.
Deixá-la aqui guardada
é coisa mais normal.

Djalma Aquino
Itu/SP, Novembro 2001

domingo, 3 de agosto de 2014

Dia desses

Dia Desses

É a ilusão de amar que me aborrece.
É lembrar que horas antes da partida,
Você jurou ser minha a sua vida
E sua a minha jurei. Agora esquece...
Eu sei que que a mácula viva permanece
Pois tenho aqui uma alma corrompida.
Inopinado, rebenta a ferida
E quieto e triste o coração padece.
A causa dessa dor (penso), parece
Ser outra. Enfim, arrependido,
Lembro o instante impensado em que parti.
Feri seu coração deixei-o partido
E ao vê-lo assim o meu também partiu-se,
Ficando seus pedaços logo ali.
Senti que era o fim. Sem o amor perdido,
Seria como morrer. Foi o qui viu-se.
Depois daquilo nunca mais vivi.


Djalma Aquino
Itu SP, Agosto 1998.

Sombra

Sombra

Um frio me sobe pela espinha e chega
Em lugar onde, supostamente, existe
A mente. Infiltra-se quase cruelmente
E manifesta, enfim, tudo o que carrega;
E pela altivez como trafega,
Existe por si mesmo e consiste
Em algo inefável, impróprio e triste.
Insisto pra que parta e ele insiste
Em permanecer ali quieto, sombrio.
Recolhe o pouco amor que me envolvia
E me envolve com um abraço próprio, frio.
A paz (fugaz) que havia, já se ausenta,
Deixando um ermo poluto nunca hesterno
Que o cérebro, impassível, não afugenta:
A pena de viver que tanto me angustia;
A angústia de morrer que tanto me atormenta.

Djalma Aquino
Itu/SP, Novembro 1998

Vazio II

Vazio II


Seria, aquele, um qualquer mês de agosto,
Não visse eu, no olhar, anunciado
O último sorriso...E um desbotado...
E um desbotado adeus banhando o rosto.

Julguei: não passaria de desgosto
Passageiro o calvário revelado.
Mas vejo, de repente, um denodado
E estranho espelho me mostrando o oposto.

Mostrou-me o corpo e a alma definhando
Num sepulcral tormento. Divagando
Como se nunca houvessem vivido.

E as partes mortas, (uma em cada parte)
Sofreram tanto ao viver sem amar-te
Que foi o mesmo que eu haver morrido.

Djalma Aquino
Itu/SP Fevereiro 2008.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Noite de Chuva

Noite de Chuva

Esse barulho é chuva
Cá no meu telhado?
Esse cheiro é de chuva?
É chuva! Nas telhas,
No chão encharcado 
Lá do meu quintal.
Vem chuva, chuvada,
Fina ou temporal.
Vem que és namorada
Para me banhar.
Vem tudo molhar.
As folhas das plantas
Que alegrias tantas,
Tantas já me deram.
Ah! chuva...Quem sabe?
Pingos escorrendo 
No céu estrelado...
Um dia disseram 
Serem suas águas,
Lágrimas dos anjos
Rindo lá no Céu.
Vem chuva! Vem logo.
Vem logo. Minha alma
Precisa de águas
Pra lavar-lhe as mágoas.
Fique um pouco, espere...
Fique que já molhas.
Não apenas plantas
Precisam crescer.
Se direito olhas,
Preciso Viver.


Djalma Aquino
Taquaritinga/SP, Janeiro 2001



Blues

Blues
E, A, E, B

Estou por aqui
Procedo do Além
Me  esquivo do mal
Esbarro no bem
Não fomento o ódio
Sou pau de dar em doido
Não temo a ninguém

De tudo que vi
Nada esquecerei
Perdi meu destino
A ilusão achei
Nem tudo é perdido
Sou doido varrido
Não temo a ninguém

São tantos caminhos
Pra se percorrer
Dias tão sozinho
Melhor esquecer
Assim vou morrendo
Aos poucos vivendo
Pra que padecer?

Djalma Aquino
Itu/SP, Julho 2001

Terrinha

Terrinha.
Dm, C

Lá há seca.
Histórias de seca ouvem-se por lá.
Mais ainda: Também há Meca,
Resto asteca talvez que ficou por lá.
Saberá alguém dizer o que há por traz daquilo?
Asilo? Talvez esmola? Mesquinhez em grande estilo? 
Expostos a miséria, passam fome em nome da fé,
Que se fortalece a cada dia, pela dor que é
Ver as mesas dos sultões
Sempre, sempre cheias de pão.
Colônia de cifras...
Indústria da dor...
Quanta tristeza, incerteza...
Certeza que nada haverá.
Nada restará.
Só cinzas.
Quimera que o acaso criou.
Mas também deixaram esperança
Nos olhos de uma criança
Seca que viveu em Meca.
Resto Asteca que ficou por lá.

Djalma Aquino
Itu/SP, Julho 2001



Não Me Fale Só de Deus.

Não Me Fale Só de Deus.
E A E A B

Não me fale só de Deus,
Muito mais eu quero  ouvir.
Diga-me dos planos seus
Pra fazer alguém sorrir.
Não tenha atitudes virtuais.
Os problemas são reais
E parte deles são seus.
Deus espera de você, bem mais.
Não espere só de Deus.

Djalma Aquino.
Itu/SP, Julho 2000.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Vez em Quando

Vez em Quando


Vez ou outra, ocorre...(Eu não me atrevo
Negar-lhes com que clara sutileza)
Ausenta-se de mim toda a tristeza,
Mostra-se a vida um recital de enlevo.

Vez ou outra (tampouco sei se devo
Revelar-lhes tal coisa) e, com estranheza,
Segue o viver em tamanha leveza,
Que toco ao belo e a este não descrevo.

Vez em quando (não sei se o giga), a vida
É harmonia em instantes convertida,
É paz serena em mim se eternizando.

Não sei se o afirme, o negue...Ou quanto dura
Essa ausência total de amargura.
Apenas sei que é de vez em quando...


Djalma Aquino
São Roque/SP, Abril 2001


Ao povo

Ao Povo

Tu assimilas como positivas
Essas benevolências demagogas
Dos loucos fariseus, que em falsas gogas,
Patrocinam-te em esmolas corrosivas?

Rejeita essas migalhas. São nocivas
À auto estima plena, a qual, tu rogas.
Rechaça essa miséria em que te afogas,
Faz da inação estéril, ações ativas.

Não permitas que patrocinem esmolas
E vez ou outra, em sacos e sacolas,
Ofertem-te como fosses indigente.

Liberta da alma o aprisionado grito,
Faz das benevolências, são conflito,
Resgata o direito de ser gente.

Djalma Aquino
Marília/SP, Março 2001

Vazio I

Vazio I

Em noites como esta, o que me espera?
Existe algo pior que ser sozinho?
Eu sigo e paro. E penso. E esquadrinho,
Voltando ao mesmo ponto onde estivera.

Minha felicidade - esta quimera
De cuja taça provo o amargo vinho;
Em cuja falsa flor e em cujo espinho
Feri-me em busca do que já tivera.

Ah! Noite vasta! Acolhe este desejo
Que em aflição percebes que sobeja,
Qual paz e escuridão que em ti sobejam.

Pois nada mais percebo, sinto ou vejo
(Exceto esta dor fina que lateja)
Embora, tudo, todos sintam e vejam.

Djalma Aquino
Itu/SP, Fevereiro 2001

Ciclo

Ciclo

Eis! Dor...estala...
Aquela que a alma astuta, incumbe o coração inocente de sentir.
Mal sabe a alma que, súbito, o pobre coração sucumbe
Por não ser capaz de suportá-la.

E devolve à alma,
Com a mesma força,
Aquela mesma dor
A ele reservada.


Djalma Aquino
Taquaritinga/SP, Janeiro 2001

Tempo Rei


Tempo Rei.

Quis voltar na cachoeira
De águas pura. A primeira
Que em minha infância faceira
Um dia meu ser banhou.

O que foi já não é mais.

Aquelas quedas passaram,
Aquelas flores murcharam,
Aquelas águas secaram
Mas antes, pedras furaram.
...E  o tempo mudou meu ser.


Djalma Aquino
Taquaritinga SP, Janeiro de 2001

Fonte

Fonte

Subi aqui neste monte
Pra ver como é que uma fonte
Nasce num lugar tão alto.
Descobri, num sobressalto,
Que aqui ela só jorra.
E não nasce, faz-se lá em baixo
Onde todo monte forra.

Djalma Aquino
Taquaritinga/SP, Janeiro 2001

domingo, 20 de julho de 2014

Anunciação

Anunciação.

O sol o dia anuncia,
A noite, o fim desse dia.
O grito anuncia a dor.
A dor anuncia o pranto,
Fruto do meu desencanto,
Botão que não virou flor.

O rio anuncia o mar,
O mar onde vou chegar:
Nos braços da solidão.
A solidão é tormento,
Um malogrado momento
Eterno no coração.

O riso que se anuncia,
Logo se vê, é folia
Dentro do meu coração.
Chama tola, passageira,
Porquê a grande fogueira
Não pega fogo mais não.

É o coração anunciando
Que sem amor vai parando.
Se para ele, eu também.
Mesmo assim o olhar esquivo
E finjo, minto que vivo
Sem o amor de ninguém.

Distante de ti estou,
Bei-flor sem asas sou.
E se quisesse voar?
Não posso. Sinto pesadas
As asas. Penas molhadas
Pelo pranto a derramar.

Jorrou pranto colossal,
Trouxe-me à boca o sal,
Trouxe-me à alma a dor.
Trouxe-me à memória as noites,
As saudades como açoites
E esse receio do amor.

A noite também anuncia
Estrelas, Ave marias,
Cruzeiro do sul só meu.
Faz-me lembrar quão distante
Está o olhar cintilante
(O adeus que não  se deu).

É nas estrelas que vejo
Frustrar-se meu vão desejo
De nelas te encontrar.
Sonho que estás numa delas
E adormeço nas janelas,
Exausto de procurar.

Djalma Aquino
Taquaritinga/SP, Janeiro 2001.

Reflexão.


Reflexão.

Em qualquer parte onde um homem viva,
A dúvida perene lhe cerceia:
Qual seja o bem a lhe pulsar na veias;
Qual nódoa má que o coração cativa.

Ou vê-se, ainda, que alguém se esquiva
Do amor latente que seu ser norteia;
Ou foge do ódio insano que permeia
O ardil pulsar que o rancor reaviva.

Mas quem assim vacila, se condena
Sem conhecer, sequer (diz-se porquanto),
A mão suprema que lhe imputou a pena.

E mesmo assim se julga ser superno:
No eterno anseio pelo Reino Santo;
No santo medo de queimar no inferno.

Djalma Aquino
Votorantim/SP, Outubro 1999


Sugestão do Dia.

Sugestão do Dia.

Não entres em correria, pois correndo,
Descartas coisas imperceptíveis
Num primeiro momento. Inconcebíveis
Aos paradigmas surrados dos humanos.
Jamais perceberás os desenganos,
A alegria, o amor e o ódio (se correndo),
Quando incrustados nas estranhas
Dos acontecimentos não palpáveis.
Sei que não és infalível.
Podes fechar os olhos para obviedades
(Aquelas enxergadas por todos
Ou percebidas apenas pelo senso comum).
Mas prescrutes, nos acontecimentos,
O que pode se aplicar a realidade.
Por que, se os frutos insondáveis, invisíveis,
Escapam aos teus olhos, onde fores,
Teus argumentos serão insustentáveis
E, mesmo te rodeando árvores amáveis,
Atribuirás ao destino os dissabores.

Djalma Aquino
Corumbá/MS Janeiro 2004

Sonho

Sonho.


Quando te tive,
Tive a mim também.
Tive de me conter.
Não contei pra ninguém.
Não falei, não vivi.
Mas me dividi em partes desiguais
Para compartilhar dos segredos da tua alma.
Não tive ânimo pra sorrir,
Pra falar das leis que me algemaram a ti.
Fiquei perplexo com a irrealidade material do meu sonho.
(Sonho - esse pedaço de tempo imutável,
Onde em nenhum momento nosso arbítrio é livre).
Também te dividi em partes distantes,
Na intenção de absorver, na totalidade, a sua beleza.
Hoje não és mais sonho, nem realidade.
És sombra - essa extensão abstrata do conteúdo do teu ser.

Djalma Aquino.
Itu/SP, Agosto 1999.

Não Sou um Poeta.

Não Sou um Poeta.

Não sou um poeta.
Rejeito a alcunha.
A alkunya rejeito
Como se supunha.
Tenho apenas feito
(isso é o que diria)
Palavras cruzadas,
Palavras juntadas
Aos temas comuns.
Nomes, versos, rimas,
Jamais Poesias.

Quem a alcunha me deu,
Não viu Assaré,
Não leu Patativa,
Não leu patavina,
Comeu muito bacon,
Bacon nunca leu.

Já vi poesias
E músicas, pinturas,
Rabiscos, gravuras..

Já vi poesias
Em belos sorrisos,
Com dentição alva
E em sorrisos belos
Sem dente nenhum.

Já vi poesias
Em olhos azuis
E de cores tantas.
Já vi poesias
Em olhar sem visão.

Já vi poesias
No caráter humano
E em suas fraquezas.
Já viu poesia
Sem ver coração?
Já viu poesia
Sem ter solidão?
Já vi coração
Sem ter solidão,
Sem ter poesia.

Já vi poesias
Em rosas, espinhos,
Veredas, caminhos,
Sonhos, desenganos...

Já vi poesias
Na vida - Alegria;
Na morte - tristeza;
No amor - beleza.
Sonho que sobrou
Livre no meu peito.
A alcunha rejeito,
Poeta não sou.

Já vi poesias
Em todas as coisas,
Em tudo que vi,
Mas não descrevi
Qualquer poesia.
Rimas tenho feito.
Poeta não sou.
A alkunya rejeito.

Djalma Aquino
Taquaritinga/SP, Janeiro 2001.

sábado, 19 de julho de 2014

Ao Chato.

Ao Chato.

Ingurgitamento do Gânglio Linfático!
Reservo este simples apelido,
Ao ser mais chato que há de ter nascido,
E que carrega em si esse ar lunático.

Ele se empolga com o "expressar-se" enfático
Que em treinos exaustivos foi obtido;
Projeto de gilete convertido
Naquele que em maçada é catedrático.

Sem ser mal intencionado, esse animal
Excede-se na dose de alto astral,
Tornando-se, as vezes, leviano.

Por isso, aos "mais normais" faço justiça:
Pra não fazer ofensas à carniça,
Promovo-lhe a piolho pubiano.

Djalma Aquino
Marília/SP, Março 2001.

Suicídio

Suicídio

No que consiste a vida? Existe graça
No impalpável porvir desconhecido,
No imutável passado adormecido,
No presente sem brilho que te abraça?

Se hoje somos caçadores, caça
Seremos amanhã. E o colorido
Sonho de se viver, é convertido
Em pesadelo, em pó, em vil fumaça.

Segue o viver, misteriosamente,
Refletindo um passado nunca ausente;
Um futuro pra onde não há transporte.

E este presente, em contínuos desgostos,
É o fado inequívoco dos opostos:
A vida aspira o hálito da morte.

Djalma Aquino
Jundiaí/SP, Abril 2001.

Flor Triste.

Flor Triste

No azul da primavera, a flor mais bela,
Mais meiga, doce, perfumada, ardente,
Mostra seu pranto e, inexplicavelmente,
Seu riso ofusca o lume de uma estrela.

Por quê será que chora a flor, se ela,
Movendo-se, tocada a brando vento,
Tocando-a , ninguém tem sofrimento;
Cheirando-a ninguém pode esquecê-la?

Quem saberá, meu Deus, Por quê ela chora?
Talvez, como eu, aquela flor agora,
Na dor inexorável das tristezas,

Veja a inutilidade desses lumes,
A insignificância dos perfumes
E a efemeridade das belezas.

Djalma Aquino
Campinas/SP, Novembro 2001.


Fé Cega

Fé Cega.

Nas dúvidas das crenças, nas crendices
Dos charlatões da fé, nas heresias
Que tanto sacramentam hipocrisias
Eternizando as máximas mesmices;

Nos céticos, nos crédulos, nas sandices
Que sempre se revelam em tortas vias;
Neste rebanho preso em estrebarias,
Nestes laicos envoltos em ledices

E em nossa consciência, quando estala
A fuga de uma nódoa exposta, imensa,
A busca de uma mácula, sem achá-la,

Ecoa um bom conselho: Que ceguemos
Ante as dúvidas que nos induzem à crença;
Ante as crenças que em certas coisas temos.


Djalma Aquino
São José do Rio Preto/SP, Dezembro 2001.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Fim

Fim

Fim...Nada mais dizem as vozes tortas.
Se todos estes anos resumidos,
Não passam de segundos esquecidos
E as flores que te dou já chegam mortas.

Tão murchas flores ao bater de portas
Fechadas. São olhares exauridos,
Trovões, sussurros, gritos espremidos
Em meio a estas flores que são mortas.

Eu sei, não foste tu, não fomos nós...
Não foi minha afonia ou tua voz,
Nem há porquê chorar por estas dores.

Precisamos ser fortes. Só assim,
Teremos ânimo pra depois do fim:
Porque depois virão dores piores.


Djalma Aquino
Jaboticabal/SP, Dezembro 2001.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Colônia I

Colônia I
((A, Cm#, G, C, Eb, A, G.))

Mãe, hoje faço dezoito anos.
Não sou mais um menor abandonado.
Sou um maior explorado.

Mãe, no auge dos meus desenganos,
Fui recrutado por engano, fui achado
Para um trabalho forçado.

Já possuo identidade
Mas não consigo em achar.
Não me deram liberdade
Para eu poder me encontrar.

Hei pai, vou aprender falar inglês
Pra ter emprego e salário miseráveis,
Pra ser escravo do cifrão.

Hei pai, Somos colônia outra vez,
Mas não temos mentes descartáveis.
Nossos Jesuítas são vocês.

Djalma Aquino
Itu/SP, Junho 2001.

História pra Amigo Dormir

História pra Amigo Dormir.

A amizade é fruto não plantado
Que a vida nos impõe, nos oferece,
De forma que ao tempo não perece
E se perece é logo resgatado.

Florido amor no rústico serrado,
Envolto em espinhos, que carece
De muito zelo, quando alguém lhe esquece
E algum desprezo, quando bem zelado.

Quem com interesse colhe a amizade,
Sujeita-se aos desmandos da vaidade
E queima-se em frívola fogueira.

Quem Planta com interesse, jamais colhe
(Por mais que com amor a vida molhe)
A amizade pura, a verdadeira.

Djalma Aquino
Campinas/SP, Julho 1999.






Quarta Feira

Quarta Feira

Nem chuva,
Nem sol,
Nem frio,
Nem calor.
Apenas um enorme vazio,
Que olhando de perto,
Não é paz...Não é dor.
Apenas um enorme vazio,
Com um tamanho de um fio...
Com a densidade da cor...

Djalma Aquino.
Sorocaba/SP Agosto 2000.

Elo I

Elo I

Não te deixo por não ter valido a pena,
Mas por não ter encontrado em teus braços,
Traços concretos da minha forma plena.
Reflexo de uma afirmação forte, amena...
Este algo manifesto em mim, que nunca te condena
Mas que procura encontrar em ti,
Braços, pernas, corpo e mente;
Interrogações comprometedoras de um passado fluente
E que hoje, inexplicavelmente,
Parecem conter a pureza exótica do cacto.
- Estranho impacto à aparência das rosas.
Deixo-te por não mais carregar-te em mim.

Campinas/SP, Maio 1999


Descoberta

Descoberta

Ouço, de repente, um brado, um grito
Parecendo de longe, de outros mundos,
Com alegria e pesar grandes, profundos,
Ecoando por mim e indo ao infinito.

Causam em mim estranho nó e, aflito,
Com lágrimas e sorrisos a alma inundo.
Em tudo que ignoro me redundo
E no que me redunda, ali me evito.

Então, ao vasculhar em mim, notei
Que cada sentimento que deixei
Disfarçados com outra aparência,

Estavam vivos. Sim! Ali estavam
Se mostrando qual eram. Ali ficavam
Latejando na minha consciência.

Djalma Aquino
Itu/SP, Outubro 1998.

Dor

Dor

Há uma dor no meu peito.  E no outro peito,
Outra dor que dilata e dilacera
Este peito, que há pouco tempo, era
Morada de um amor, de um outro peito.

Essa dor não é causa nem efeito.
É estática, móvel, breve espera,
Infinito segundo, esquadria, esfera...
E outra dor não poderá dar jeito.

Oh! Deus! Senhor que sois onipotente,
Que sois onisciente, onipresente,
Que ventilais o Dom do meu viver,

Não quero ser feliz como era outrora,
mas, Pai, eu sou um filho que implora:
Remove esse martírio, esse sofrer.

Djalma Aquino.
Itu/SP, Janeiro 1998.

Insônia

Insônia

Agora que estou pronto, agora é certo
Que nada há de vir sem que eu perceba;
Nem há água tão limpa que se beba
E anime à travessia do deserto.

Meu mundo - ora tão claro, ora encoberto...
Não há nenhuma fonte que receba
O amor, ou nenhum início que conceba
O longo fim, o quase nunca perto.

Embora seja limpo e certo e, embora
Venha a ser qualquer dúvida do agora,
A certeza fatal desse momento,

Deus sabe: Não há tempo, dia ou hora
Pro bem vir a pulsar, jorrar pra fora
A água pura da qual sou sedento.

Djalma Aquino.
Itu/SP, Fevereiro 2000

Tempo

Tempo

Tendo o homem alcançado certa idade
E vendo a estrada da vida afunilar-se,
Professor do seu ato há de tornar-se
Evitando excessos de ansiedade.

Faz-se utópica a felicidade
Pois o limite do zelo aflora. E dá-se
Mais ao próximo que a si, pois esse impasse
Rende-lhe frutos certos da bondade.

Vive assim esse homem. Até que um dia,
Entre um Padre Nosso e Ave Maria,
Descobre-se igualzinho aos demais.

Todo o tempo lutou contra o destino
E, apesar de chorar como um menino,
Traz nos ombros a idade de seus pais.

Djalma Aquino.
Itu/SP, Julho 2000

Sozinho

Sozinho.

Assusta-me a impressão de ser sozinho
Mesmo em meio a tantas pessoas
Boas de fato, outras não tão boas;
Algumas não são água nem são vinho.

Sou só! Não sinto o sol no azul marinho
Nem o frescor das gélidas garoas;
Sou sozinho na dor, embora doa
Pisar com outros sobre tanto espinho.

A solidão me açoita...Como açoites
Das brisas que se tornam fantasias
E me cercam em cárceres medonhos.

Mas tenho algum amor em minhas noites,
Um pouco de viver pelos meus dias
E um monte de ilusão nestes meus sonhos.

Djalma Aquino.
Itu/SP, Janeiro 2002

Às margens

Às margens.

Estes meninos, santos andarilhos
Do amanhã, pintados nos retratos
Da vida, com os desprezos e mal tratos
Que falseiam por baixo dos teus brilhos;

Estes garotos sujos, maltrapilhos,
De aparência triste e rotos tratos,
Cujo alimento é sobra dos teus pratos
E cujas vestes foram dos teus filhos;

Estes pequenos mártires e suas santas
Chagas, parecem conjugar com as tantas
Dores dos Santos, que algum dia, a Luz

Das Luzes alcançarão. Meninos,
Sereis chamados! Como os pequeninos
À quem um dia se referiu Jesus.

Djalma Aquino.
Itu/SP, Julho 2002