sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Sujeito Indeterminado.

Sujeito indeterminado.

Disseram-me: São psicografados
Teus escritos. De espíritos...Do além mundo...
De vidas que se vertem e, num segundo,
Se juntam aos teus versos externados.

Ora! Por mais que estereotipado,
Incapaz, inativo, vagabundo,
Não é meu cérebro assim. tão infecundo
Que não possa escrever o que é pensado.

Se chamam de poesia esses escritos
Que vêm em luz, em sopros, em conflitos
De magníficas cores, quadro e som,

Pra mim é presunção ou sacrilégio
Dizer de outro este privilégio
Congênito que Deus me deu: O Dom.


Djalma Aquino
Marília SP, Março 2001

(IN) Decisão

(IN) Decisão

Não quero mais te ver. Pouco me importa
As poucas vezes que amei te buscando...
As tantas vezes que, te encontrando,
Vi-me sem vida, com a alma quase morta.

Juro não mais te ver. Que se abra a porta
Do quarto escuro onde estou chorando;
Se mostre ao mundo de que forma e quando
A dor de ser sozinho esta alma corta.

Jurei não mais te ver...Mas neste instante,
Minha alma, num ímpeto alucinante,
Vacila e novamente acha teu colo.

Desperto! E neste mar de solidão,
Naufraga um amargurado coração
Que aceita a ilusão como consolo.


Djalma Aquino
Marília SP Março 2001

Coma Alcoólica

Coma Alcoólica

Num instante raro, meu olhar resvala
Em teu semblante. E noutro instante mágico,
Percebo um quase belo, um quase trágico
Sorriso que se expande pela sala.

Olha e sorri..E Olha...E nada fala
Pra este ser - molambo opiofágico.
Consome-me, então, um caos letárgico
Que em turbulento sono, o sonho embala.

E passa o tempo. E passa...E você solta
O último sorriso. A minha volta,
Pairam resquícios de uma angústia bruta.

À míngua, em coma, assumo que a loucura
Mistura ao vômito sua áscia figura,
De gosto azedo qual ácida fruta.

Djalma Aquino
Botucatu/SP, Março 2001.


Olhar e Sombra

Olhar e Sombra

Não lembro ao certo se era noite ou dia...
Sequer recordo a cor do teu cabelo.
Tampouco lembro o que tornava belo
Aquele olhar que mais que a luz luzia

Também não sei dizer o que envolvia
Teu corpo (se o tinhas), ou se de gelo
Eram tuas formas, congelando o apelo
Que em avidez extrema eu te fazia.

Apenas lembro que em mim tu moraste
E que meu coração, um tanto pálido,
Sugado, tu largaste em qualquer canto.

E das sementes que em mim plantaste,
Brotou um sentimento quase esquálido,
Um arrependimento quase santo.


Djalma Aquino
Vargem Grande do Sul/SP, Maio 2001



Nós, por exemplo.

Nós, por exemplo.

Com um pouco mais de sensibilidade,
Podemos ver semblantes desolados
Nos homens. Os sorrisos disfarçados
Escondem dor em grande quantidade.

Podemos ver com que docilidade
Transformam seus sonhos naufragados
Em álibis. Ou desacreditados,
Suas frustrações entregam às santidades.

E quantos não se cercam de tamanha
Angústia e da sensação estranha
Que a morte é, desta vida, pura essência?

Conformam-se em serem "seres vivos"
E fazem disso, um pálido motivo
Pra suportarem o fardo da existência.


Djalma Aquino
Vargem Grande do Sul/SP, Maio 2001

Saber

Saber

O saber é desejo inatingível;
É um sonho profano e sacrossanto
Em cujas vísceras fuçamos tanto,
Na busca eterna do incognoscível.

É tropeçar na fórmula infalível
De se trocar, as cegas, nosso pranto
De ignorantes pelo cego encanto
Dos que julgam saber do impossível.

E como se de nós ele zombasse,
Dá uma face ao bem e a outra face
Oferta ao mal sem qualquer relutância,

Fazendo suscitar o contra-censo
Que me divide e, muitas vezes, penso
Ser a base de toda a ignorância.


Itu/SP
Novembro 2001

Renascer

Renascer

Quando murcha uma flor, no chão, largadas,
As pétalas, com rota aparência,
Trazem ao Jardim, a dor, a reticência,
Como sofressem almas naufragadas.

E a roseira triste, mutilada,
Como pedisse ao tempo clemência,
Não vê que a natureza, em sapiência,
Faz nascer outra rosa perfumada.

Também, nas muitas vezes quando vemos
Findar um doce sentimento, temos
A sensação que a flor está perdida.

Surgem os brotos! Outra flor emerge
Pela Graça de Deus que tudo rege,
Governa e dá sentido à nossa vida.


Djalma Aquino
Jaboticabal/SP, Dezembro 2001



Partindo...

Partindo

Já não te importa a terra onde floriste,
As dores deste mundo desumano,
Já não te importam os traços deste plano
Que segue tal e qual um dia tu viste.

Tudo é igual...Apenas bem mais triste...
O árico viver (e seu  arcano)
Converterá em Fé, o desengano,
Mas quase tudo é vão, já que partiste.

Eu sei! Já não te servem estas matérias
Inúteis. Tampouco, estas macérias
Podem prender a tua alma. Enfim,

Somente importa o bem que fizeste
E o modo humilde como tu viveste.
E sei! Florescerás em outro jardim.

Djalma Aquino
Itu/SP, Dezembro 2001

Chatice

Chatice


Tenho um desmaio por dia
Quando não vejo a Maria.
(Esta rima é fantasia
Que me vem com estranheza:
Posso sorrir de tristeza
E desmaiar de alegria).


Djalma Aquino
Jaboticabal/SP, Dezembro 2001

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Maresia

Maresia

De tudo que é sentido, eis que condenso
Um sentimento extremo e ao mar, a frente,
Deixo-o esquecido disfarçadamente
Mas ei-lo forte me espetando o senso.

Eu quis despir-me do que é mais intenso.
Vi-me qual rio, que em caudalosa enchente,
Tudo carrega indiferentemente
E esquece tudo nesse mar imenso.

Mas não sou rio e tu, meu sentimento,
Quando na alma, cm chaga convertido,
Só acabas se te segue outro tormento.

De vez em quando  teimas, vens...me sondas
Qual grão de areia na praia perdido,
Nas águas turvas, misturado em ondas.

Djalma Aquino
São José do Rio Preto SP, Fevereiro 2001

Título Morto

Título Morto

Homens! Sandeus! Patuscos, que este solo
Profanais como se não o houvessem herdado.
Malamba a tantos vós haveis causado
E a tantos outros também causeis dolo.

Não mais bebais tal vinho que um só golo
Sobeja a vós que estais embriagados.
Desnudai-vos da pecha do pecado
E esperai no perdão vosso consolo.

Quereis? Podeis!  Porém, o tempo finda:
Debelai-vos à cura a alma podrida
E dissipais labéus que é tempo ainda.

E vede: Não vos quis o Pai por sorte,
Almas penadas maculando a vida;
Corpos em renque à espera da morte.

Djalma Aquino
Votorantim SP, Outubro 1999

Anjo?

Anjo?

É anjo em carne e assim, inconcebível
Enquanto "ser" e quando "não ser". Desces
Á terra e em fogo de paixões te aqueces;
E vai  aos céus pra ouvires minhas preces.
É mutação frequente, imensa, incrível.

Te fazes perto enquanto tão distante
E tão distante apesar de tão perto;
E jamais tens pra mim olhar desperto;
Se em cárcere te privo, estás liberto.
Por quanto, és "ser" enquanto "ser mutante".

Anjo! Bem vejo quando vens e deitas,
Mas não percebo quando me rejeitas
E te rejeito quando não percebes.

E a carne logo te desassemelhas
Pois partes para o céu ruflando aselhas
E em febril enlevo me recebes.

E crendo ou não eu busco teu conselho;
E em amor ou crença és tu que me aconselhas
Já que é paixão ou fé que na alma arde.

Porquê a herege eu mesmo me assemelho
Se o meu querer a anjo te assemelha.
És anjo enquanto....porquanto...apesar de...

Djalma Aquino
Itu/SP Dezembro 2000

Último Adeus

Último Adeus

Um último olhar agora lanço
Em direção ao corpo que jaz manso,
Que há tanto tempo, pedia descanso
Do peso imenso que a vida lhe impunha.
Desse-me Deus poder, a mão lhe punha
Retirando do corpo essa ferida,
Devolvendo-lhe, assim, o que em vida
Negou-lhe, até de forma desmedida,
A natureza fria, imparcial.

Mas vejo, de outro lado, o triunfal
Espírito sereno...que lhe sai
Como nuvem. Sinto que ele vai
Seguindo certo e firme rumo ao Pai.


Djalma Aquino
São Roque/SP Fevereiro 2000

Nota

Nota

Tenho um violão
Com as mesmas cordas
E a mesma afinação que o seu.
Mas não tenho o dom
De tirar do meu
Aquele belo som
com diminuta e tal
Mas isso não faz mar
Porquê minha tristeza
Tantas vezes fatal,
Não vou transparecer
Num belo recital.
Deixá-la aqui guardada
é coisa mais normal.

Djalma Aquino
Itu/SP, Novembro 2001

domingo, 3 de agosto de 2014

Dia desses

Dia Desses

É a ilusão de amar que me aborrece.
É lembrar que horas antes da partida,
Você jurou ser minha a sua vida
E sua a minha jurei. Agora esquece...
Eu sei que que a mácula viva permanece
Pois tenho aqui uma alma corrompida.
Inopinado, rebenta a ferida
E quieto e triste o coração padece.
A causa dessa dor (penso), parece
Ser outra. Enfim, arrependido,
Lembro o instante impensado em que parti.
Feri seu coração deixei-o partido
E ao vê-lo assim o meu também partiu-se,
Ficando seus pedaços logo ali.
Senti que era o fim. Sem o amor perdido,
Seria como morrer. Foi o qui viu-se.
Depois daquilo nunca mais vivi.


Djalma Aquino
Itu SP, Agosto 1998.

Sombra

Sombra

Um frio me sobe pela espinha e chega
Em lugar onde, supostamente, existe
A mente. Infiltra-se quase cruelmente
E manifesta, enfim, tudo o que carrega;
E pela altivez como trafega,
Existe por si mesmo e consiste
Em algo inefável, impróprio e triste.
Insisto pra que parta e ele insiste
Em permanecer ali quieto, sombrio.
Recolhe o pouco amor que me envolvia
E me envolve com um abraço próprio, frio.
A paz (fugaz) que havia, já se ausenta,
Deixando um ermo poluto nunca hesterno
Que o cérebro, impassível, não afugenta:
A pena de viver que tanto me angustia;
A angústia de morrer que tanto me atormenta.

Djalma Aquino
Itu/SP, Novembro 1998

Vazio II

Vazio II


Seria, aquele, um qualquer mês de agosto,
Não visse eu, no olhar, anunciado
O último sorriso...E um desbotado...
E um desbotado adeus banhando o rosto.

Julguei: não passaria de desgosto
Passageiro o calvário revelado.
Mas vejo, de repente, um denodado
E estranho espelho me mostrando o oposto.

Mostrou-me o corpo e a alma definhando
Num sepulcral tormento. Divagando
Como se nunca houvessem vivido.

E as partes mortas, (uma em cada parte)
Sofreram tanto ao viver sem amar-te
Que foi o mesmo que eu haver morrido.

Djalma Aquino
Itu/SP Fevereiro 2008.