Anunciação.
O sol o dia anuncia,
A noite, o fim desse dia.
O grito anuncia a dor.
A dor anuncia o pranto,
Fruto do meu desencanto,
Botão que não virou flor.
O rio anuncia o mar,
O mar onde vou chegar:
Nos braços da solidão.
A solidão é tormento,
Um malogrado momento
Eterno no coração.
O riso que se anuncia,
Logo se vê, é folia
Dentro do meu coração.
Chama tola, passageira,
Porquê a grande fogueira
Não pega fogo mais não.
É o coração anunciando
Que sem amor vai parando.
Se para ele, eu também.
Mesmo assim o olhar esquivo
E finjo, minto que vivo
Sem o amor de ninguém.
Distante de ti estou,
Bei-flor sem asas sou.
E se quisesse voar?
Não posso. Sinto pesadas
As asas. Penas molhadas
Pelo pranto a derramar.
Jorrou pranto colossal,
Trouxe-me à boca o sal,
Trouxe-me à alma a dor.
Trouxe-me à memória as noites,
As saudades como açoites
E esse receio do amor.
A noite também anuncia
Estrelas, Ave marias,
Cruzeiro do sul só meu.
Faz-me lembrar quão distante
Está o olhar cintilante
(O adeus que não se deu).
É nas estrelas que vejo
Frustrar-se meu vão desejo
De nelas te encontrar.
Sonho que estás numa delas
E adormeço nas janelas,
Exausto de procurar.
Djalma Aquino
Taquaritinga/SP, Janeiro 2001.
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